Artigo


Solidão

Quando falamos em solidão, a primeira idéia que nos vem à mente é de algo ruim, negativo, que nos traz apenas sofrimento, pois culturalmente aprendemos somente a valorizar a capacidade que temos de nos vincular e relacionar com as pessoas.

Esquecemo-nos, porém, que a solidão também tem seu pólo positivo, podendo ser vista como uma marca de maturidade emocional e de crescimento interior. Lembre-se que as melhores obras, as mais belas composições e poesias foram criadas no momento em que o indivíduo se permitiu estar em sua própria companhia.

Sempre digo que viver sozinho está longe de ser uma vocação humana, pois somos seres sociáveis por natureza. Se vivemos em um mundo povoado por bilhões de pessoas seria incoerente, portanto, dizermos que nos sentimos sós. Apesar disto, ultimamente, tenho observado muitas pessoas reclamarem que estão sofrendo de solidão, mesmo quando acompanhadas. Mas, porque será então que isto acontece?

Para respondermos a esta pergunta temos que entender primeiramente o significado de solidão. Ao contrário de que muitos pensam, solidão não é nos prescindirmos da companhia do outro, mas sim se trata de um estado de espírito, de algo interior que está relacionado com os vários sentimentos que o indivíduo carrega dentro de si, com sua percepção interna dos fatos e acontecimentos, que muitas vezes não condizem com a realidade externa.

Muitas vezes um indivíduo pode estar rodeado de pessoas e sentir a dor da solidão. Isto porque este sentimento vai depender exclusivamente dele, de quanto ele está afastado de sua essência, do quanto ele se rejeita, se culpa e é inflexível consigo mesmo e com a realidade a sua volta.

Sendo assim, poderíamos dizer que a solidão nada mais é do que o medo que temos de nos deparar com a nossa própria companhia, seja pela falta de amor próprio, pela nossa crença no não merecimento ou o pavor de nos confrontarmos com o nosso vazio interior.


Somos responsáveis por nossas escolhas

Gostaria de ressaltar que o sentimento de solidão não vem da situação em si, mas sim das fantasias que criamos quando nos comparamos aos outros de forma destrutiva e negativa.

Neste momento, esqueço que estou vivenciando determinada situação pelas escolhas que eu mesmo fiz durante a vida e que o fato do outro estar cercado de gente ou com um companheiro, não significa que ele não está se sentindo só, ou ainda, que é feliz.

Claro que existem situações em que o destino nos passa uma rasteira e acabamos por amargar nosso período solitário inevitável, seja por separação, perda ou afastamento de pessoas queridas. Porém, mesmo que o recolhimento inicial seja natural, o quanto irei permanecer neste estado dependerá exclusivamente de mim.

Enquanto vivo o passado e fico ressentido vou atualizando este sentimento para o presente e aqui a escolha é minha. Sempre digo que ressentir significa sentir de novo aquilo que já se foi. Até quando você pretende continuar a amargar aquilo que já aconteceu rejeitando a realidade a sua volta? Até quando você intenciona se isolar para não lidar com a dor e sofrimento, ao invés de mudar crenças e comportamentos que já não lhe servem mais e tomar atitudes sadias que garantam seu bem estar?

Colocar-se em posição de vítima, culpar a Deus, a sociedade, ao mundo, a família, a economia não vai te ajudar em nada e, ainda, fará com que você se sinta incapaz de olhar para a sua própria atitude de inércia perante a vida.

Se uma criança cai e se machuca, ela chora e se levanta automaticamente continuando a ter prazer em sua brincadeira. Nós adultos, porém, quando nos machucamos, nos isolamos na nossa dor esquecendo de nossa capacidade interna de recomeçar aonde paramos e de descobrir novos horizontes de vida jamais explorados.


A carência e o medo de ficar só

Muitas vezes, vemos que uma decepção amorosa, por exemplo, faz com que o indivíduo se afaste do mundo, se isole esquecendo-se que quando nasceu aquela pessoa não fazia parte de sua vida e que ele não tem a posse do outro ou de seus sentimentos.

Nestes casos, o sentimento de solidão advém da crença que temos de que alguém irá nos completar, de nossas projeções sobre tudo aquilo que queremos para nós, como se o outro tivesse que atender a todos os nossos desejos.

É como se delegássemos a responsabilidade de nossa felicidade a outrem. Esquecemos, porém, que ninguém completa ninguém e que se não nos preenchermos a nós próprios, nunca conseguiremos compartilhar de uma relação verdadeira, porque aqui não haverá trocas, mas apenas cobranças e idealizações.

Somente quando vivemos a liberdade de sermos nós mesmos é que podemos nos relacionar com o outro.

Um outro fato também comum de encontrarmos são indivíduos que, na busca de uma solução para o sentimento negativo da solidão, acabam por aceitar ligações com pessoas que não estão em acordo com seus princípios éticos e morais, agindo muitas vezes, até em desacordo com seu próprio desejo ou aceitando coisas que não querem ou mesmo vivenciando situações humilhantes por medo de ficar só.

Outros ainda, no desespero por ter uma companhia, cedem á pressão do grupo se envolvendo com drogas, buscam companhia virtual através da Internet ou, em casos extremos, recorrem ao suicídio como forma de acabar com sua dor. Neste último caso, isto acontece não por ele não suportar ficar sem alguém, mas sim por não agüentar ficar em sua própria companhia. Ou seja, nestes casos, o grau de afastamento de si mesmo já vinha ocorrendo sem que o indivíduo se desse conta.

A falta de crença e fé em nós mesmos muitas vezes nos coloca em situações de comodismo e aqui criamos mil desculpas para justificar nosso comodismo: tédio na relação, falta de boa companhia, isolamento por medo de se machucar novamente diminuindo ainda mais nossa auto-estima, etc.

Temos que entender que o sentimento de solidão está dentro de nós e relacionado com o nosso vazio interior ocasionado por uma falsa concepção de amor e valorização que temos a nosso respeito.


Como vencer a solidão

Muitos me perguntam: Será que existe uma fórmula, uma estratégia para que eu possa vencer o fantasma da solidão?

Aqui, só posso lhe dizer que não existe um caminho único, pois cada ser tem características únicas e reage de maneira própria diante dos obstáculos da vida. Porém, a forma como o indivíduo vê sua realidade interna e externa e os recursos internos que possui para sair do papel de vítima é que vai fazer a diferença.

Enquanto acreditarmos que o outro é o responsável por tudo aquilo que ocorre conosco e enxergarmos a solidão apenas em seu pólo negativo, este sentimento irá nos corroer por dentro levando-nos à inércia e ao adoecimento.

Às vezes são as nossas crenças que têm de ser revistas, hábitos que têm de ser mudados, flexibilidade que tem de ser adquirida.

Para aliviarmos a angústia é necessário primeiro nos encontrar conosco mesmos, seja pela fé e/ou pela reflexão interior, sem medo de conhecer nossos abismos.

Nunca se esqueça que a possibilidade de gozarmos a nossa própria companhia é uma excelente fonte de auto-conhecimento e uma excelente oportunidade para crescermos enquanto pessoas.

O sentimento negativo da solidão nunca existirá se estivermos em coerência com a nossa própria essência, nos amando e respeitando nossos limites.

Viver a alternância entre solidão e convívio pessoal é extremamente saudável e nos leva ao amadurecimento emocional.

Procure entender o que a sua experiência de solidão está tentando lhe dizer. Aproveite este momento para mudar tudo aquilo que não deseja mais em sua vida e entenda que você é o único responsável pelo que virá logo a seguir.