Artigo


Eu uso drogas, e daí?

É legal usar drogas? A maconha faz mal? Estas perguntas são freqüentes entre jovens adolescentes que buscam entre outras coisas o entendimento de si, do mundo, das pessoas. Jovens que se deparam com um mundo assustador de violência, guerras, desemprego, desestruturação familiar e afetiva.

Muitos procuram entender o que "rola" no mundo, por que as pessoas são tão egoístas, por que ele não faz tanto sucesso como seu amigo ou não consegue ser amado e respeitado como tantos outros. Não sou bonito, sou gordo, magro, alto, baixo, burro, tímido, sou um azarado são frases comuns entre aqueles que deixaram sua auto-estima para trás.

É o jovem a procura da sua identidade, defendendo-se de um mundo que o ameaça, de seu sentimento de desajuste, de decepções amorosas, ou mesmo de problemas com familiares e amigos.

À procura de um lugar no mundo, ele procura ser aceito, reconhecido, ser amado, notado, apoiado, compreendido e quando isto não acontece lá sai ele à procura de algo externo para preencher o imenso vazio interno que o atormenta.

Resistir ao uso do álcool, cigarro, maconha ou outras drogas, pode às vezes significar um sinal de caretice, de desajuste com o grupo, levando-o à sensação de solidão.

Mas, por que alguns conseguem ser os "tais" sem o uso destas substâncias e porque outros se vêm obrigados a adotá-las para superar suas supostas deficiências ?

Antes de responder a esta pergunta vamos definir primeiramente o que vem a ser DROGA.

Podemos defini-la como o nome genérico de substâncias químicas, naturais ou sintéticas que podem causar danos físicos e psicológicos a seu consumidor. Seu uso constante pode levá-lo à mudança de comportamento e à criação de uma dependência.

Dizemos que um indivíduo é dependente ou adicto a uma substância quando ele perde sua liberdade de escolha diante de um objeto específico predominando uma ação impulsiva e irrefreável em relação ao mesmo. Na toxicomania, esse objeto é a droga, e a ação impulsiva é o seu consumo. Conseguir estabelecer um limite entre "curtir um barato" e se tornar dependente de um objeto é uma linha tênue muito difícil de ser definida.

Se eu perguntar, neste momento, a qualquer usuário se ele é dependente, a resposta é quase que unânime: NÃO!!! Mas, será que é tão fácil sabermos se estamos pulando para o outro lado do muro ou não?

Através da Psicanálise aprendemos que o psiquismo humano é regido por um princípio geral denominado princípio do prazer. Ou seja, todas as nossas ações, condutas e pensamentos buscam o prazer e evitam o desprazer. Mas, se no consumo de drogas há uma busca de prazer, o que ocorre quando se estabelece uma adicção, já que aí algo além parece determinar tal conduta?

Neste caso, dizemos que o objeto - droga - se torna uma necessidade e não um objeto de desejo, como no caso de um não adicto. Na toxicomania, a droga se torna o objeto exclusivo de um prazer necessário. Sendo assim, enquanto na dependência química observa-se um desejo compulsivo de usar a droga regularmente, devido a seus efeitos psicotrópicos, a dependência física leva o usuário a apresentar problemas orgânicos decorrentes da falta da substância.

Pesquisadores tem identificado vários elementos importantes que podem estar envolvidos na falta de autocontrole para o consumo de drogas e formulando diversos conceitos que tentam explicar essas falhas de regulação, que levam em última instância, à adicção. Entre eles destaca-se o "sofrimento em espiral", que diz que uma primeira falha de autocontrole levaria o indivíduo a um sofrimento emocional, o qual inicia um ciclo de falhas repetidas de autocontrole. Cada falha, por sua vez, traria um aumento de sentimentos negativos, como a culpa, por exemplo. Sendo assim, a primeira experiência com drogas se repetiria de acordo com as circunstâncias pessoais e sociais, ocasionando uma recaída e dando origem às falhas no autocontrole.

Por outro lado, embora haja controvérsias, a crise de mal estar gerada pelo grande desconforto ocorrido nos períodos de abstinência, também poderia ser vista como uma das bases explicativas para o uso compulsivo e continuado da droga.

A esta altura, você deve estar achando que este é mais um artigo careta. Que eu não tenho nada a ver com isto e que não sei nada sobre seus problemas. Tá, bom!!! Eu não tenho nada mesmo a ver com sua escolha, mas você certamente tem. Será que você está consciente dela? Ou será que você é daquele tipo que vai levando a vida imaginando que não tem nada a perder, que o corpo é seu e que a liberdade de usar ou não, não é da conta de ninguém? Se você pensa assim, continuo a não ter nada a ver com isso, mas gostaria que você me desse uma chance de eu te contar algumas coisas que sei.

Durante minha existência, assim como você, eu também tive sofrimentos, machuquei e fui machucada, tive minha auto-estima destruída, mas consegui me recuperar e, acima de tudo, aprendi muito sobre a vida e como me defender.

Sabe, na minha adolescência..... é porque já tive sua idade também...... conheci muita gente que usava drogas. Amigos que eu estimava e apoiava nas horas do desespero. Vi alguns se livrarem delas depois e outros que destruíram completamente suas vidas. Foi triste!!!! Mas, não deixei de amá-los assim mesmo. Infelizmente, eles que pensavam que nada tinham a perder, perderam a coisa mais preciosa: a sua liberdade de escolher, pois ficaram para sempre escravos das drogas. Você já imaginou o que é ser escravo de uma simples substância química? Será que precisavam se sentir tão insignificantes assim?

Hoje, ainda me pergunto por que as pessoas precisam de muletas para caminhar na vida, quando ela nos oferece uma infinidade de opções sadias. Eu sei, que na hora da tristeza, não conseguimos enxergá-las, mas será que precisamos desistir tão facilmente assim?

Vamos pensar um pouco: se eu obtenho prazer ao usar uma substância psicoativa eu não preciso do outro para obter prazer, certo? Eu me sinto independente e no controle da situação. Não preciso aceitar críticas, tenho a sensação de poder, de ser especial, de ser admirado, minha performance melhora, encubro minha timidez, me sinto feliz, pertencente a um grupo....... O que tem, então, isto de errado?

Num primeiro momento é..... parece ser legal...... os problemas parecem diminuir..... mas, sua vida não se resume nestes pequenos momentos. Ela é muito mais extensa e cheia de boas e más surpresas que precisam ser vividas, experimentadas e enfrentadas com coragem.

Mas, vamos dar um exemplo de uma pesquisa feita nos EUA, para você saber onde eu quero chegar.

Segundo esta pesquisa, concluiu-se que dos sujeitos que iniciaram o uso de drogas, 70% o fizeram na adolescência (entre 11 e 17 anos), sendo que, entre os efeitos procurados por estes jovens destacaram-se principalmente o desejo de fuga da realidade, a necessidade de diminuir a tensão vivida (decorrente da pressão familiar e social) através do relaxar e acalmar, bem como para não ficar deprimido.

Se formos analisar mais profundamente, aqui estamos falando de problemas e incertezas próprios não só da adolescência, como neste caso, mas de coisas que todos nós passamos várias vezes na nossa vida. Mas, então, por que será que alguns têm que usar drogas e outros não para ultrapassá-los?

Desde que nascemos, cada um de nós tem um limiar para suportar as frustrações, para enfrentar a realidade. Quando este limiar é baixo usamos de mecanismos defensivos, como o uso de drogas, por exemplo. Através deste comportamento mergulhamos, então, na alienação e buscamos fantasias regressivas para compensar aquilo que não está sendo encontrado no mundo real, atitude esta que com o tempo nos leva a vitimar e destruir a nós próprios. Ou seja, aqui percorremos na contra-mão da existência, buscando o tudo no nada, imolando-nos a nós mesmos, estreitando nossas relações com o mundo.

Só para te esclarecer, nesta pesquisa, observou-se também que a restrição no estabelecimento de relações sociais já se evidenciava antes mesmo do início do consumo sistemático de drogas, conforme depoimento de 74% destes jovens, e se acentuava após a instauração do consumo sistemático das mesmas, quando passamos a ter 91% dos sujeitos admitindo a extrema limitação dos contatos sociais, e 50% dos sujeitos admitindo a existência de problemas com a Justiça. Além disso, apesar de haver bom potencial intelectivo e senso de realidade preservado na maioria, a regredida condição emocional perturbava a adaptação às regras sociais, em geral revelando fuga, medo de se expor, defesas paranóides de perseguição, levando-os a um contato rígido e impessoal, pouco emotivo.

Neste exato momento, talvez você esteja me perguntando: Tá legal, isto aconteceu com esses caras. Eu sei o meu limite e, com certeza, nada disso tem a ver com minha realidade.

Será? Primeiro gostaria que você compreendesse que o ato de consumo de drogas deve ser visto a partir de vários fatores, destacando-se entre eles: os problemas psicológicos enfrentados pelo indivíduo, a tensão sócio-política e econômica que define sua sociabilidade, a propriedade farmacológica das drogas, os elementos hereditários, sua estrutura psíquica , bem como seus recursos internos frente à pressão do meio externo.

Sabemos que, durante o desenvolvimento, a curiosidade é um traço característico de toda criança saudável e, principalmente, do adolescente, motivados para conhecer tudo o que os cercam. O perigo é quando nada sobra a ser explorado na natureza e na vida destes, que não seja a droga.

A rebeldia exagerada e o teste dos limites podem se tornar exacerbados, quer pela presença de outras frustrações e sofrimentos na sua vida, quer pela pressão exagerada do grupo de amigos. Entre os fatores a nível pessoal destacam-se, ainda, aqueles relacionados à fuga dos sofrimentos físicos ou emocionais causados pela incidência consistente de muitos dos fatores acima citados, os quais podem estar aliados, ainda, à baixa auto-estima, bem como a fatores genéticos, levando o indivíduo, frente a indisponibilidade de outras fontes positivas de prazer, à busca pela droga.

Sendo assim, o que estou tentando fazer não é acusá-lo ou discriminá-lo porque você acha legal usar drogas, mas sim, preveni-lo sobre as conseqüências do uso indevido destas substâncias. Ou seja, evitar que você estabeleça uma relação destrutiva com a droga.

Neste sentido, é importante você sempre levar em consideração as circunstâncias em que ocorre o uso, com que finalidade e qual o tipo de relação que você mantém com a substância, seja ela lícita ou ilícita. Faça estas perguntas a você mesmo e quem sabe você começará a descobrir que talvez esteja na hora de você modificar algumas coisas em sua vida.

Se você não conseguir resolver isto sozinho, não se acanhe. Procure uma ajuda terapêutica, mesmo pensando que isto não passe de bobagem. Você não deve se envergonhar de nada e nem se esconder, mas sim se fortalecer em suas escolhas ou modificá-las sem "neura", quando necessário.

Só exemplificando, posso dizer que, a maconha, por exemplo, considerada por muitos inofensiva, oferece os mesmos riscos que o álcool, podendo provocar dependência, problemas mentais (psicose, depressão, paranóia, pânico), comprometimento no trabalho e no estudo, devido à diminuição da capacidade de se concentrar e memorizar. Além disso, ela intensifica os problemas respiratórios, causa ansiedade e é responsável pelo aumento da violência, suicídio e acidentes.

Não quero ser aqui mais uma a apontar o dedo para você, acusando-o daquilo que eu não conheço. Você deve ter suas razões quando fez esta opção. O que quero é apenas estender uma mão amiga e dividir com você seus medos, angústias, frustrações. Ensiná-lo a olhar no espelho todas as manhãs e ver a imagem de alguém feliz, forte, consciente de suas escolhas. Isto não é impossível. A nossa felicidade não pode ser comprada, nem substituída por uma droga qualquer, ela tem que ser conquistada e a maior conquista que podemos fazer é primeiro nos conhecer profundamente, aprendendo a nos amar e a nos respeitar, antes mesmo de pedir que os outros façam isto por nós. Vamos valorizar a vida e a capacidade que temos, através de nossa vontade, de modificar a nós e ao meio.

Nunca se esqueça que a nós só compete mostrar o caminho, mas não podemos caminhar por ninguém. Cada um tem que ser respeitado em suas escolhas, mas nem por isso devemos nos alienar, enquanto vemos o outro se afundar. Tente!!!! Reflita, antes de ignorar minhas palavras. Se assim mesmo, você continuar a pensar que tudo isto é bobagem, eu te respeitarei da mesma forma e a ti só me resta desejar-lhe boa sorte!!!!!