27 de outubro de 2020
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Dicionário Budista

O budismo possui um vocabulário bastante peculiar. Para compreender os ensinamentos é necessário saber antes de tudo o que significam alguns termos que se repetem frequentemente. Portanto, vamos a um pequeno glossário com os principais termos budistas:

Anatman (Negação do Ego): um dos principais fundamentos do Budismo. Esta palavra pode também ser traduzida como “Não-alma” ou seja, algo que é destituído de espírito ou mente.  Infelizmente essa palavra é mal interpretada uma vez que para alguns significa que nada existe, mas isso não é o que o budismo ensina. Outro ponto importante é que a não compreensão deste termo fará com que você interprete mal a maioria dos ensinamentos do Buda. De acordo com esta doutrina, não há “eu” no sentido de um ser permanente, integral, autônomo dentro de uma existência individual. O que nós pensamos como nosso ego, o “eu” que habita o nosso corpo, é apenas uma experiência efêmera. Dessa forma, é mais correto dizer que há existência, porém, não da forma como estamos acostumados – self[1] e alma, e sim que embora não exista o self e a alma, ainda há vida após a morte, renascimento e proveito do karma.

Anitya (Transitoriedade ou Impermanência): outro ponto fundamental do budismo. Toda a existência e fenômenos estão em constante mudança, não são iguais mesmo que poucos segundos os separem. Tudo um dia morrerá ou acabará, e essa perspectiva é a verdadeira causa do sofrimento. Porém, é importante ressaltar que este termo não deve ser interpretado como algo pessimista e ruim. O progresso e a evolução são manifestações dessas mudanças constantes. Tudo na vida é passageiro, as alegrias, as tristezas… Como diria a sabedoria popular: “não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe”.

Bodhicitta (a mente de iluminação. Bodhi=iluminação, Tchitta=mente): É um estado de consciência de grande amor e compaixão, um desejo espontâneo e profundo de ser luz para os outros, liberando-os do sofrimento e guiando-os à iluminação, ou seja, atingir o estado de Buda em benefício de todos os seres sencientes (seres que possuem a capacidade de sofrer ou sentir prazer ou felicidade). Por meio do exercício da mente compassiva, se alcança a bodhicitta.

Bodhisattva (aquele que se empenha em alcançar a Iluminação): este nome foi usado para se referir a Siddharta Gautama quando ele ainda não havia alcançado a Iluminação. Posteriormente, com o surgimento do budismo mahayana, este nome passou a designar todos que se esforçavam para atingir o estado de Buda (a Iluminação, a perfeita sabedoria) seja por esforço próprio ou ao conduzirem outros ao reino de Buda por meio de sua compaixão enquanto eles próprios buscavam esse objetivo. Os Bodhisattvas mais conhecidos dentre muitos existentes são: Avalokitesvara (Kwannon), Ksitigarbha (Jizo) e Mañjusri (Mon-ju).

Buddha (o lluminado): esta palavra significa “o sábio, o iluminado”, aquele que alcançou o perfeito conhecimento da verdade e que por este motivo, libertou-se de todo e qualquer apego à existência e ensinou a todos como alcançar esta Iluminação antes de sua entrada no Nirvana. Devido à diferença dos meios de como alcançar esse estado, o budismo foi dividido em diversas seitas e escolas. No budismo mahayana, por exemplo, ao lado do Buda histórico, Sakyamuni, muitos outros budas são aceitos: Amitabha (Amida), Mahavairocana (Dainichi), Bhaisajyagur (Yakushi), entre outros. Independente da escola ou corrente seguida, o objetivo final dos budistas é se tornar um Buda.

Delusão: em sânscrito, delusão é avidia (ou Prajna – Sabedoria) ao contrário. Tecnicamente falando, delusão é quando olhamos para algo e esquecemos todas as demais, ou seja, justamente porque enxergamos, somos cegos. Este fator mental torna nossa mente agitada e fora de controle devido a essa atenção imprópria. Existem três delusões principais: ignorância, apego e aversão. Delas surgem todas as demais: medo, inveja, orgulho e arrogância, avareza, dúvida e outros.

Dharma (a verdadeira Doutrina – Preceitos éticos do budismo): são os preceitos ensinados por Buddha Shakyamuni, que inclui 84 mil métodos para revelar a verdadeira natureza da mente e atingir a Iluminação. Existem três tipos de cânones nesses ensinamentos: Sutras, o principal dharma ensinado pelo próprio Buda; Vinayas, código de disciplina dos monges transmitido por Buda e Abhidharmas, que são os comentários e discussões sobre os Sutras e Vinayas feitos pelos sábios de épocas posteriores. Estes cânones formam o que chamamos de Tripitaka. O Dharma é a segunda das Três Joias do budismo (aprofundarei sobre esse assunto em outro artigo).

Gonpa (Gompa ou gumba): É o sinônimo de mosteiro ou complexo monástico budista, especialmente budista tibetano. Esse tipo de construção é muito comum no Tibete , em outras regiões ao norte da Índia e budistas como o Butão, Nepal e partes da China. Muitas vezes esse nome se aplica a um único edifício, mas o mais comum é a utilização deste termo para nomear um conjunto de edifícios com funções de culto (templo, estupas, santuários, etc.)., residência de monges e/ou monjas, espaço de aprendizagem,  formação e sadhana, bibliotecas, entre outros.

Guru (Mestre espiritual): Ele é quem se dedica a dar ensinamentos e guiar os alunos no caminho da iluminação, ensinar métodos corretos para superação do sofrimento e aperfeiçoamento do corpo, da palavra, da mente, das qualidades e das ações. Cabe ao guru também dedicar a sua prática para o benefício de todos os seres.

Iluminação: é a libertação completa de todas as falhas e obstruções mentais nos seus diversos níveis: do mais grosseiro até o mais sutil. É o objetivo principal de todos os budistas.

Karma (ação): embora o significado original desse termo seja simplesmente “ação”, pode ser entendido como o princípio da infalibilidade de causa e efeito, ou seja, cada um dos nossos atos resulta, dependendo de sua natureza, no bem ou no mal, na felicidade ou sofrimento, influenciando nossa vida atual e as futuras. Este conceito abrange três tipos de ações: física, oral e mental. O Karma é a força que “nos obriga a nascer, mesmo que não queiramos, e a morrer, mesmo que não queiramos”. Ao se falar do ciclo de nascimento e morte, é fundamental enfatizar que não é “você” que percorre e retorna nesse ciclo, e sim o seu karma.

Lama: é o mesmo que Guru, só que em tibetano. Um lama pode ser monge ou não. Há muitos lamas do budismo tibetano que não são monges, são casados e têm cabelos longos. Um lama pode ser monge, ou seja, ter os votos de monge, e por algum motivo entregar seus votos. Mesmo não sendo mais monge, ele continua sendo lama e continuará se dedicando a dar ensinamentos.

Leigo: pessoa que estuda e pratica o budismo, porém, sem ter tomado a ordenação de monge ou monja.

Mala: chamado também de japamala, é um rosário utilizado para contar preces ou mantras. Normalmente o mala tradicional possui 108 contas, mas podemos encontrá-lo com 27 e 56 contas. Posteriormente farei um artigo explicando como utilizá-lo corretamente e o porquê das 108 contas.

Mandala: em sânscrito significa círculo ou “aquilo que circunda um centro”. É uma representação geométrica da dinâmica relação entre o homem e o universo. Também conhecida como círculo mágico ou de concentração de energia, é o símbolo da integração e da harmonia. Para o budismo, a mandala é um tipo de diagrama que simboliza uma mansão sagrada, o palácio meditacional, representando todas as qualidades iluminadas.  Cada mandala está associada a um Buda. Normalmente elas são pintadas como thangkas e representadas tridimensionalmente em madeira ou metal ou construídas com areia colorida sobre uma plataforma. Quando feita com areia, logo após algumas cerimônias, a areia é jogada em um rio, para que as bênçãos se espalhem. Desfazer a mandala serve também como exemplo de impermanência.

Mantra: esta palavra é formada por outras duas em sânscrito: Man, que significa mente e Tra, que significa proteger. Ou seja, significa literalmente “proteger a mente”.  O mantra é uma vibração sonora que, quando emitido corretamente, auxilia a desenvolver concentração e a entrar no estado de meditação. Ele sempre está relacionado com uma determinada qualidade que podemos desenvolver, como a compaixão, proteção, cura, amor, sabedoria entre outros. O mantra budista OM MANI PEME HUM, o da compaixão ilimitada, é um dos mais conhecidos.

Meditação: significa “familiarizar-se com os aspectos positivos e virtuosos da mente”. É uma técnica de treinamento da mente que nos faz enxergar o mundo de forma mais clara, ampla e auxilia a tornar a mente compassiva. A prática da meditação traz diversos benefícios como calma, serenidade, aumento da concentração e da felicidade.

Monge ou Monja: a palavra monge vem de “monos” que significa “sozinho”.  Estritamente falando, a palavra “monge” não existe no budismo. Ela é normalmente utilizada para indicar um Bhikshu, alguém que recebeu uma ordenação completa — isto é, tomou todo o conjunto de mais de duzentos votos e dedica o seu tempo principalmente à vida espiritual.

Mudra (selo): são as posições das mãos realizadas em muitas práticas budistas e de outras religiões que influenciam a energia do corpo físico, emocional e espiritual e que direcionam nossa energia interna.

Mahayana (O Grande Veículo): Ao longo do tempo da história do budismo, duas principais correntes de pensamento surgiram: Mahayana e Theravada (ou Hinayana).  O budismo mahayana espalhou-se pelo China, Coreia, Japão, o Tibete, Ásia Central, Vietnã, e de Taiwan, enquanto o theravada (veículo menor) difundiu-se por Burma, Sri Lanka, Tailândia, etc. Para o budismo do “grande veículo”, todos os seres sofrem neste mundo de nascimento e morte e que todos, sem qualquer discriminação, podem ser conduzidos à Iluminação.

Nirvana (a perfeita tranquilidade): esta palavra significa literalmente “apagar, extinguir”. Este é o estado onde se extinguem por completo todas as paixões mundanas, degradações, insatisfações, é algo fora do sofrimento. Os que alcançam esse estado são chamados de Budas. No nirvana todo o carma já foi esgotado e é o fim dos renascimentos no samsara.

Paramita (passar para a outra margem): é quando se alcança a Terra de Buda por meio da prática de várias disciplinas budistas. Para se transpor este mundo de nascimento, morte e atingir o mundo da Iluminação, é comumente usada a prática dessas seis disciplinas: caridade, moralidade, paciência, diligência, concentração e julgamento correto (ou sabedoria).

Parinirvana: é o último nirvana ou o nirvana completo que é alcançado quando se morre.

Prajna (sabedoria): é um dos seis paramitas. É a função mental que nos torna capazes a compreender sem erros na vida e a diferenciar entre o que é verdadeiro ou não. Quem adquire perfeitamente este prajna é chamado de Buda. É a mais apurada e iluminada sabedoria.

Puja: em sânscrito significa reverência, honra adoração ou culto. Puja é um ritual de preces no qual podem ou não ser feitas oferendas. É uma forma de oferecer símbolos de gratidão a Buda, ao Dharma, ou Sangha. Os pujas são realizados em templos ou em casa como práticas frequentes, e principalmente nos dias de Uposatha.

Refúgio: significa proteção e é o primeiro passo formal para entrar no caminho budista. No voto de refúgio você se compromete em seguir o exemplo do Buda, fazer a prática que leva ao resultado (ser um buda) e estudar/aplicar o dharma (ensinamentos do Buda) e participar da comunidade de praticantes (a sangha), ou seja, toma-se refúgio ou proteção nas três joias.

Rinpoche: significa “precioso” em tibetano. É um título dado aos Lamas que são reconhecidos como lamas reencarnados, que possuem grandes realizações espirituais. É a maneira de se dirigir a um Lama respeitosamente.

Samsara: é a perpétua repetição do nascimento e morte, desde o passado até o presente e o futuro ao qual os seres sencientes estão presos. É caracterizada pelo contínuo estado de sofrimento e insatisfação.  Só se consegue escapar dessa roda por meio da perfeita sabedoria, ou seja, da Iluminação.

Sangha: é uma das Três Joias do budismo. Consiste na comunidade espiritual composta pelos mestres, monges, monjas, e leigos que seguem os ensinamentos de Buddha (Buda). Inicialmente, a sangha era composta apenas por monges e freiras desabrigados. Porém, com o movimento mahayanista, todos aqueles que almejam o estado de Bodhisattva passaram a ser aceitos.

Sunyata (a não substancialidade): este conceito, um dos pontos fundamentais do budismo, significa que nada tem substância ou é permanente: tudo é desprovido de qualquer tipo de substância essencial e, por isso, tudo na realidade é “vazio”. Este termo é conhecido também como vacuidade. O Budismo afirma que uma coisa não pode existir inerentemente por si própria, ou seja, não há nenhum puro elemento permanente, como base para a existência de algo: as coisas existem por causa da sua interdependência umas das outras. Por ser um tema bastante complexo e de difícil compreensão, dedicarei um artigo específico para falar sobre a vacuidade.

Sutra (escrituras sagradas): são os tratados onde estão registrados os ensinamentos de Buda. É uma das partes do Tripitaka.

Tantra: significa “continuidade”. São textos dos ensinamentos budistas sobre as práticas do mantra secreto, proporcionando um caminho rápido para a Iluminação. Foram transmitidos de mestre para discípulo e apresentam uma ênfase em ritual, mantras e visualizações. Tantra é colocar o resultado na ação, transformar os fluxos de energia natural do nosso corpo, nos permitindo maximizar a energia que cura profundamente nosso corpo e mente.

Tashi Delek: cumprimento tibetano que significa “que tudo seja auspicioso”.

Terra Pura: também conhecida como reino puro. É a terra dos Buddhas (Budas), um ambiente puro no qual não existe sofrimento e a Iluminação é assegurada.

Thangkas: são pinturas religiosas que tiveram sua origem no Tibete no século VIII, pintadas em tecido de algodão com tintas a base de água coradas com pigmentos orgânicos e minerais fixados com goma. Para os budistas tibetanos estas pinturas religiosas oferecem uma bela manifestação do divino, sendo visualmente e mentalmente estimulante.

Theravada (ou Hinayana – os patriarcas anciãos): Thera significa anciãos. Esta escola é a dos mais velhos que, historicamente, foi um grupo de monges conservadores que seguiam os preceitos de modo leal e opunham-se a outro grupo de monges mais liberais, cujas ideias formaram o pensamento mahayana. Mahadeva, um monge progressista, insistiu sobre a livre interpretação dos sutras, o que provocou a cisão entre Theravada e Mahasamghika, que posteriormente constituiu o budismo mahayana.

Três Joias: são os objetos de refúgio de um budista – Buddha (Buda) como o mestre, Dharma como os ensinamentos e práticas e Sangha como a comunidade de praticantes.

Tripitaka (os três vasos): os três ramos das escrituras budistas (Dharma) constituem a tripitaka que são: sutras – que contém os ensinamentos de Buda; Vinayas – que contém as suas disciplinas; e Abhidharmas – que encerram vários comentários e ensaios sobre os preceitos e doutrinas budistas.

Tulku: é uma palavra tibetana que se refere à reencarnação reconhecida de um Lama que renasceu intencionalmente para beneficiar todos os seres.

Uposatha: significa “entrar para ficar”. Nesses dias, que são definidos de acordo com base no calendário lunar, os leigos usam roupas especiais (geralmente túnicas brancas) e entram nos mosteiros locais, acompanhando os monges no canto e na meditação. Com isso, os leigos podem observar outros preceitos morais, adquirindo dessa forma um mérito adicional e reforça sua prática do Dharma, seu comprometimento com o Budha e a relação com os monges.

Vajra: é uma palavra sânscrita que significa tanto “diamante” quanto “relâmpago”. É a natureza imutável do corpo, da fala e da mente. Como objeto ritual, atribui-se ao Vajra a representação da firmeza do espírito e força espiritual. Em seu centro existe uma esfera que representa a natureza primordial do universo, o vazio potencial (Sunyata). A partir dessa esfera inicial surgem, para ambos os lados, pétalas de lótus e das pétalas surgem lâminas. Para um lado, representa a iluminação (Nirvana) e, na outra direção, representa o mundo fenomênico (Samsara). Simbolicamente representa a espiritualidade e a prática.

Vajrayana: em  sânscrito e significa “veículo de diamante”. É o caminho espiritual daqueles que seguem a abordagem mahayana.

 Vinaya: é o código de disciplina para o auto treinamento deixado por Buddha para os monges e monjas. O Vinaya tem sua função central no sentido de assegurar a pureza do modo religioso de viver. Serve como antídoto para o desejo. Estes ensinamentos discutem a disciplina e a conduta ética no contexto monástico.

 Votos: é uma determinação virtuosa de abandonar determinadas falhas que consiste em um conjunto de práticas de disciplina moral que são seguidos e mantidos pelo praticante. Existem os votos monásticos, chamados de Vinaya, e os votos leigos que são “não roubar”, “não mentir”, “não matar”, “não se intoxicar”, “não ter má conduta sexual”.

Assim como tudo na vida, esse texto também é impermanente. Como o vocabulário é vasto, novos verbetes serão inseridos assim que se fizer necessário, mas não se preocupem: conforme as mudanças forem feitas aqui e as palavras surgirem nos textos, deixarei um link entre os dois para facilitar a leitura.

 

Tashi Delek!

 

 

[1] Self: Arquétipo da ordem e totalidade, abrangendo o consciente e o inconsciente, e que embora polares, não representam opostos, mas sim uma relação de complementaridade, tendo o self como mediador e gestor dos recursos e conteúdos do individuo. Segundo Jung, toda personalidade é formada a partir de um centro que é responsável por seu desenvolvimento, ou seja, o self não é apenas o ponto central, mas abarca a totalidade. Assim, o self, através dos acessos e ativações dos arquétipos, motiva a formação e desenvolvimento do ego. (Fonte: JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2009)

 

Artigo por Ana Caroline Nonato. 

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