18/01/2021

Se encontrar para sair

“Só há uma única saída para quem está no fundo do poço: subir”.

Essa foi a frase que me marcou quando assisti ao filme “Sing – Quem canta seus males espanta”. Depois, de outras maneiras, essa frase se apresentou novamente para mim, como no filme “Walt antes do Mickey” onde, no final do filme, o personagem diz “Todas as adversidades que tive na vida, todos os problemas e obstáculos, só me fortaleceram”. Ou ainda quando me deparei com um artigo onde dizia “Os obstáculos representam uma reorganização de roteiro”.

As frases acima me fizeram lembrar que meses atrás eu percorri caminho semelhante. Desenhei o fundo de um poço na minha vida, na busca de encarar tudo o que não me fazia bem. Me surpreendi com essa experiência, pois coloquei a minha mente racional para analisar e enfrentar esse problema, mas não me permiti senti-lo. O resultado disso foi que o Ego entrou em ação, me fazendo acreditar que eu estava resolvendo o problema que me propus a enfrentar.

Eu queria uma solução rápida e a minha mente criou essa solução. Por algum tempo até achei que tivesse vencido os monstros no fundo desse poço que se apresentaram e que eu havia conseguido resolver a situação. Mas, quando supomos que sabemos bem da teoria, o Universo muito sábio te manda para a prática. Foi aí que percebi como deixei o Ego me ludibriar. Resultado: Não passei na prática.

Ao sentir que falhei, me veio uma profunda dor. Decidi ser verdadeira comigo mesma e, quando me dei conta, me vi de verdade lá no fundo do poço, de onde achei ter saído, por trazer à tona minha verdade e tantas outras, coisas e situações, que se juntaram a isso. Eu ainda estava no fundo do poço e mal havia percebido! Todas as dores tomaram conta de mim, dor física, emocional, moral… Meu único consolo era o meu travesseiro… o travesseiro onde todas as noites eu amparava minha cabeça com a mente já bastante enfraquecida, o mesmo travesseiro que enxugava minhas lágrimas. O Ego fez com que eu me sentisse a coitadinha. E, lá no fundo do poço, fiquei por um bom tempo, contemplando minhas verdades, minhas mentiras, tentando me resgatar, mas sem força alguma.

Quando eu estava prestes a me entregar e desistir de sair dessa situação, algo acendeu em meu coração. Tive profundamente a certeza de que viver dessa maneira não era o que eu queria para minha vida. Entendi que estar no fundo do poço não é um sinal de fracasso, mas uma oportunidade de vermos tudo de um outro ângulo, com um outro olhar. O amor que ascendeu por mim mesma naquele instante foi a força que me fez começar a encarar a situação e aceitar o que tenho de ruim e o que tenho de bom. Esse mesmo amor me fez olhar aos poucos para esses monstros interiores e tratá-los de forma diferente.

Aos poucos você consegue olhar para cima e ver a saída. Não importa se ela é curta ou longa, o importante é viver as experiências a cada escalada. Pois, a cada escala, damos de cara com esses monstros que estão ali para nos derrubar. É nesse momento que devemos parar, respirar, olhar e sentir. Pois, somente quando nos permitirmos sentir o que se passa dentro de nós, saberemos qual o próximo passo dar. Se durante esse processo nos sentirmos bem, então podemos prosseguir. Se sentirmos algum desconforto, esse é o sinal de que precisamos parar, refletir e, se necessário, mudar a rota.

Perceber-se no fundo do poço não é a melhor sensação na vida do ser humano, mas ela nos permite ver outras possibilidades, internas e externas. Isso requer olhar para dentro e se permitir viver novas experiências. Quem já se percebeu lá e saiu, descobriu sua força e novas possibilidades. Quem está lá e aos poucos se vê saindo, está descobrindo a sua força e as novas possibilidades que se apresentam. Quem ainda se vê lá, mas se considera sem forças para sair, permita-se vivenciar tudo o que for preciso. A possibilidade de se conhecer é que te mostrará sua força oculta, a mesma força que te dará o impulso para subir.

Talvez achem que é loucura ou besteira dizer que estar no fundo do poço é uma forma de transformação, mas ela se encaixa muito bem nas duas frases citadas logo no início deste texto, que falam sobre Obstáculos.

Lembre-se: chegar ao fundo também é uma forma de reorganização da vida, onde podemos nos fortalecer para uma nova subida.

Denise Araújo
Nem tanto ao céu, nem tanto a Terra. Atriz, uma pessoa buscando sempre o equilíbrio e o caminho de encontro a minha alma na vida e nos palcos.

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